quarta-feira, abril 1, 2026

De Norte a Sul do Brasil, extremos climáticos já afetam plantio de soja

Segundo a Conab, semeadura alcançou 28,4% até 21 de outubro, um ritmo mais lento do que no mesmo período do ciclo passado

O plantio de soja no Brasil encontrou seu primeiro percalço na safra 2023/24. O clima irregular — ainda que dentro do esperado para um ano de El Niño — está afetando o andamento da semeadura em algumas das principais regiões produtoras do país.

Devido ao excesso de chuvas em algumas regiões e à escassez em outras, até 21 de outubro, o plantio atingiu 28,4% da área de 45,1 milhões de hectares destinada ao cultivo de soja nesta safra. Os dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) revelam um atraso em relação aos 34,1% semeados no ano anterior.

No Rio Grande do Sul, havia otimismo entre produtores nesta temporada, após as grandes perdas da safra passada causadas pela seca devido ao fenômeno La Niña.

No entanto, neste ciclo atual, com o clima afetado pelo El Niño, houve um excesso de chuvas, principalmente em setembro, o que atrasará a colheita do trigo pelos produtores gaúchos e, consequentemente, o plantio da soja.

“Tivemos um grande volume de chuva por um longo período, algo poucas vezes visto no Estado. Agora os produtores vivem um momento de apreensão, uma vez que muitos deles não contam com trabalhadores suficientes para fazer a colheita do trigo e a semeadura da soja na sequência”, afirma Alencar Rugeri, assistente técnico estadual em culturas da Emater-RS.

Devido ao solo úmido, o produtor de soja pode perder as melhores oportunidades de semear o grão. Desde 1º de outubro, os agricultores do Rio Grande do Sul estão autorizados a plantar as sementes. No entanto, devido ao solo mais úmido do que o habitual, muitos agricultores estão sendo cautelosos e aguardando o momento mais adequado para iniciar o plantio, de acordo com a Emater.

Cautela também deverão ter os produtores do Centro-Oeste e do Matopiba [confluência entre os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia], na avaliação de Fabio Marin, professor do departamento de engenharia de biossistemas da Esalq/USP.

Ele observa que este será um ano típico do padrão do El Niño, com muita chuva no Sul do país e a falta de umidade em partes do centro-norte do Brasil.

“No Matopiba, o período de chuvas que começa em novembro, pode atrasar, e, além disso, as precipitações devem terminar mais cedo. Não há motivos para ser otimista com a safra na região. Ela pode até ser boa, mas neste momento é pouco provável que isso aconteça”, afirma.

Em Mato Grosso, principal produtor de soja do país, a seca e o aumento das temperaturas — que alcançaram 44 °C em algumas regiões — levaram ao replantio em certas áreas, segundo a Aprosoja-MT.

Já no Paraná, segundo maior produtor nacional, a situação de clima chama a atenção, segundo Marin. O Estado até este momento não registrou chuvas em grandes volumes como as que castigaram regiões do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

“No Paraná, a safra caminha muito bem. As chuvas ocorreram na medida certa, favorecendo também a rápida semeadura do milho de verão”, observa.

De acordo com Edmar Gervásio, analista do Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral), “o plantio de soja, de modo geral está bastante adiantado no Estado, e as chuvas não devem impactar no ritmo dos trabalhos”.

Previsão do tempo

De acordo com o professor da Esalq, é prevista chuva de 70 milímetros nas regiões do Centro-Oeste nos próximos 15 dias. As temperaturas, embora elevadas, serão inferiores aos recordes recentes.

Para o Matopiba, a previsão é de que as precipitações atinjam até 40 mm, enquanto para o Sul do país são esperados 100 mm de chuva nos próximos 15 dias.

Diante dos extremos climáticos, Marin reforça a importância de aplicar recursos em ferramentas de análise de clima, que vão além da previsão do tempo.

“O produtor está sempre atento com a qualidade do solo, mas investe na safra sem muitas vezes conhecer o risco climático da sua região. É importante ter acesso ao histórico de clima da propriedade, para conhecer cada janela ideal e semear na época mais adequada de plantio”, afirma.

Embora reconheça que o clima gera incertezas, em sua primeira estimativa para a safra 2023/24, divulgada no dia 10 deste mês, a Conab projetou uma produção recorde de soja no país. A previsão é de que alcance 162 milhões de toneladas, alta de 4,8% sobre a temporada passada.

Fonte: https://globorural.globo.com/agricultura/noticia/2023/10/de-norte-a-sul-do-brasil-extremos-climaticos-ja-afetam-plantio-de-soja.ghtml