Em meio a uma seca histórica, agricultores se preparam para dias piores no Amazonas
Não chove no Estado desde agosto, o que afetou a produção e elevou os preços dos alimentos, pois o escoamento pelos rios se tornou inviável
Setembro ainda estava pela metade quando o agricultor Delmar Rodrigues começou a se preocupar. Fazia tempo que ele não via as águas do Solimões baixarem com tanta rapidez. Em poucos dias, a margem do rio desceu um barranco e sumiu de vista.
Em tempos de cheia, o Solimões chega na soleira de sua pequena casa de madeira erguida sobre palafitas que fazem pouco sentido nestes tempos de seca. Agora, para chegar à beira do rio, Delmar precisa vencer mais de 150 metros de barro e lama.
“Estamos acostumados com as cheias, com a vazante, acontece todo ano, mas desta vez foi diferente. Foi rápido. E foi forte”, ele contava no início da tarde quente da última quarta-feira.
Agricultor como tantas famílias que vivem nas áreas de várzea dos rios amazônicos, Delmar se prepara para dias piores. O milho cresceu pouco, as cebolas estão pequenas e a lavoura de melancia foi abandonada antes de as plantas rasteiras darem frutos. “Não chove aqui desde agosto e está cada vez mais difícil puxar água do rio. Acho que terei, por baixo, uma perda de 30% na produção”.
Na última semana, Delmar cavou um buraco de dois metros de profundidade e uns dois metros de largura do lado de sua casa. Criou uma espécie de reservatório para irrigar as áreas mais baixas — e mais distantes — da margem do rio.
A água chega por um sistema de mangueiras ligadas a uma bomba de sucção instalada a quase 200 metros dali. “Toda manhã eu entro na lama e instalo a bomba ainda com o sol nascendo. No final do dia, trago de volta. É muito perigoso deixar a bomba com o rio descendo tanto”.
Nesta semana, comprou mais 50 metros de mangueira, se preparando para entrar ainda mais longe no rio para encontrar o ponto certo para instalar a bomba, que, segundo ele, precisa estar em uma área com, no mínimo, 80 centímetros de profundidade.
“Estamos aqui nesta terra há mais de 30 anos, vimos muitas secas e muitas cheias, mas como agora, não. Agora é diferente”.
Cheias impactam produção
Delmar mora às margens do Solimões desde que nasceu. Quando criança, vivia com os pais rio abaixo, já perto do ponto onde o Solimões encontra o Negro e, juntos, se transformam no maior rio em volume de água do mundo. Mas as cheias frequentes, diz, impossibilitaram que a família continuasse produzindo as hortaliças e verduras vendidas no Porto de Manaus.
A grande e caótica metrópole amazônica, com seus mais de dois milhões de habitantes, é abastecida por uma vasta e dispersa rede de agricultores familiares que vivem nas áreas de várzea dos rios e igarapés que cortam a cidade. “Eu tenho sorte, porque eu consigo escoar o que produzo pela estrada, mas tem muita gente, aqui perto, que está perdendo tudo porque os acessos secaram, não tem como chegar nem com canoa a remo”.
No principal mercado de Manaus é fácil ver os impactos do desabastecimento. Os preços subiram mais de 30% nos últimos dias e muitas frutas e hortaliças que antes vinham do outro lado do rio agora chegam de caminhão e, até mesmo, de avião, de outros Estados. Nem mesmo a melancia, um produto farto por aqui, escapou. Os frutos agora chegam de Roraima pela BR-174, que liga Manaus a Boa Vista.
“Infelizmente não estamos mais conseguindo trabalhar com os produtos daqui, o frete subiu 200% em alguns casos”, dizia o feirante Francisco Flávio, de 53 anos, que há 30 tem um box na Manaus Moderna, o mercado central da capital amazonense.
Ele, como todos aqui, ainda se lembra bem de 2010, o ano da maior seca da história da Amazônia. Naquele ano, do dia 24 de outubro, o Rio Negro chegou a seu nível mais baixo já registrado: 13,63 metros de profundidade. Na quarta-feira, dia 4 de outubro, o Porto de Manaus registrou que o Negro chegou a 14,90 metros de profundidade.
Francisco, também como quase todo mundo por aqui — de pescadores a políticos, de agricultores a meteorologistas — tem poucas dúvidas de que os recordes serão batidos nas próximas semanas. A expectativa é de que os rios sigam baixando até o fim de outubro.
Os cientistas dizem que uma confluência de eventos climáticos extremos está causando essa seca histórica na Amazônia. Além do El Niño que se formou — e tende a se intensificar — nas águas do Pacífico, um aquecimento anormal das águas do Atlântico Norte e um aumento moderado na temperatura da superfície do oceano na altura da costa do Nordeste são apontados como os responsáveis pela falta de chuvas na Amazônia.
“É uma situação preocupante. Não exatamente por esses fenômenos, que são naturais e são cíclicos, mas pela intensidade e a frequência com que estão ocorrendo”, diz o biólogo e cientista americano Philip Fearnside, que estuda a Amazônia há quase 50 anos.
Seca e a nova realidade
Foi na última década e meia que a Amazônia registrou a maior seca, em 2010, e a maior cheia, em 2021, de toda sua história. “Os estudos mostram que a frequência e a intensidade com que os El Niños estão se formando no Pacífico são consequência direta do aquecimento do planeta”, diz Fearnside, integrante do grupo de cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudança no Clima (IPCC, na sigla em inglês) que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2007, em conjunto com o ex-vice-presidente americano, Al Gore.
Stélio Rodrigues tem quase a mesma idade que o doutor Fearnside, que em maio completou 76 anos. “Faço 72 esse mês e há 30 moro aqui nessa beira de rio”, me contava no fim da tarde de terça-feira, um dia tristemente especial para os moradores dos flutuantes encalhados na lama do que até semanas antes era o Rio Puraquequara.
Mais cedo, os homens se juntaram e abriram uma cacimba de um metro de profundidade no lodo ainda úmido. Uma agua barrenta de cor acinzentada brotou do buraco aberto a muitas mãos e se transformou na única fonte de abastecimento dali.
“O rio secou, mas agora temos água para tomar banho, lavar louça e lavar a casa, não precisamos ir embora”, me contava Severino Andrade, de 65 anos, tido por ali como o autor da ideia de abrir a cacimba às margens do fio de água que um dia foi o Puraquequara.
Nesta semana, o acesso entre o Porto de Puraquequara e o Rio Amazonas fechou. Não há água suficiente nem para as canoas pequenas vencerem a lama. Na feira dessa pequeno vilarejo de pescadores na periferia de Manaus, os peixes agora chegam de carro.
“O preço triplicou em um mês, não chega mais peixe aqui no porto, estamos indo buscar longe para vender aqui”, me dizia Kaila Pereira, de 30 anos, enquanto limpava seu pequeno ponte de venda no que há poucos meses era o porto de um lago que tomava conta das várzeas e que, por vezes, suas águas chegavam ao nível da rua.
Stélio, assim como Severino, assim como Raimundo, como Antônio, e tantos outros homens — e mulheres — que vivem da pesca no Puraquequara, frequentaram pouco a escola. A pesca, fonte de renda nas épocas fartas e de sobrevivência nos tempos de escassez, foi a prioridade para quase todos. E, ainda que sem os conhecimentos científicos de Philip Fearnside, quase todos concordam que as coisas não vão bem com a Amazônia.
“É muita queimada, muito desmatamento, ia acontecer uma hora, não tinha jeito”, diz o pescador Stélio Rodrigues — Foto: Yan Boechat
“É muita queimada, muito desmatamento, ia acontecer uma hora, não tinha jeito”, me dizia Stélio ao cair do dia, com um ar naturalmente professoral. “Acho que estamos pagando o preço de tudo que fizemos”.