Os solos brasileiros guardam um tesouro de moléculas que auxiliam na regeneração, na oferta de bioinsumos e na resiliência climática
“Eu sou a fonte original de toda vida. A mina constante de teu poço. Sou a espiga generosa de teu gado e certeza tranquila ao teu esforço.” Os versos da poetisa goiana Cora Coralina entoam a conexão profunda entre homem e terra, mas também evidenciam a urgência dos cuidados com o solo em um cenário de extremos climáticos cada vez mais frequentes.
Prática em expansão na agropecuária brasileira, a adoção de biológicos requer, primeiramente, atenção às características e demandas do solo, condição essencial para o sucesso de determinada técnica ou tecnologia.
Há muito a ser explorado, avalia o pesquisador Fernando Andreote, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), ao mencionar que “menos de 10% dos microrganismos presentes no solo foram aproveitados pela indústria de bioinsumos”. Para o es-pecialista, há um potencial desperdiçado nos solos brasileiros, consequência de uma negligência velada nos últimos anos.
No entanto, o processo não significa um descaso por parte dos produtores. Mapear e analisar solos custa caro e pode levar semanas, assim como recuperar áreas degradadas depende de investimentos robustos. No caso do Brasil, a dificuldade aumenta, pois não há uma padronização de solos. De acordo com o professor, é possível citar, ao menos, 50 tipos gerais de terrenos agricultáveis que requerem manejos singulares.
As especificidades impõem o desafio de extrair da natureza moléculas aderentes a cada tipo de solo para que os bioinsumos auxiliem, por exemplo, na maior absorção de água, de nutrientes e de carbono. Andreote cita que na estrutura dos solos há uma biodiversidade muito maior do que se tem registro, de aproximadamente 5.000 organismos. É um tesouro que, em poucos anos, pode fazer do Brasil líder mundial na produção de insumos biológicos.
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É o que o pesquisador chama de microbiota do solo, definida pelo conjunto de bactérias, fungos e outros organismos. O professor salienta que conhecer essa composição ajuda, cada vez mais, a ter insumos biológicos potentes para conservar o solo. Mas, nessa jornada, os produtores precisam de assistência técnica para monitorar a composição e aderir a outras práticas sustentáveis, que também representam maneiras de moldar a biodiversidade. “Há uma infinidade de bioinsumos escondidos nos solos brasileiros, basta entendê-los e explorá-los, pois são elementares para controlar os efeitos dos extremos climáticos no campo”, destaca.
A preocupação com solos também faz parte da agenda de entidades internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), que, em 2015, instituiu o ano internacional do solo. O objetivo foi alertar a sociedade sobre os perigos da degradação. Na época, o órgão apontou que a quantidade de solo fértil no mundo cairia pela metade até 2050.
Entre os biológicos, um segmento que tem ajudado na contenção dos estresses abióticos, isto é, que não são causados por pragas e doenças, são os biofertilizantes. Diferentemente do que se pensa, são produtos à base de moléculas extraídas da natureza, como as algas. Como adubos não sintéticos, ajudam a transformar solos – inclusive pastagens degradadas – em áreas mais resistentes a condições adversas.
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Entretanto, os efeitos dos bioinsumos podem não ser instantâneos a depender da situação da lavoura. “O uso de biofertilizantes pode estimular o sistema antioxidante das plantas, melhorando a sua adaptação aos estresses abióticos, como restrição hídrica por períodos curtos, salinidade e altas temperaturas. Podem se somar a outras tantas boas práticas agrícolas que busquem uma agricultura com abordagem regenerativa”, descreve o coordenador do Laboratório de Biofertilizantes da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Átila Mógor.
Uma das funções do produto é nutrir o solo para alimentar a microbiota. Por isso, potencializa o efeito de proteção contra problemas causados, principalmente, pelas mudanças climáticas. De acordo com o professor, os compostos vão exercer na planta uma atividade de sinalização, que a faz detectar novas moléculas e dar uma resposta metabólica específica.
O Brasil é o país que mais adota biofertilizantes no mundo, aponta uma pesquisa global da consultoria McKinsey. Os dados divulgados neste ano mostram que 36% dos brasileiros já utilizam esse tipo de produto, seguidos de produtores dos países da União Europeia, com 25%; dos Estados Unidos, com 12%; e da Argentina, com 6%.
Aderir a biofertilizantes também pode ajudar o país a reduzir a dependência internacional de adubos químicos, além de ser uma alternativa mais rentável em médio prazo. “Biofertilizante é um passo a frente na busca por uma agricultura de baixo carbono e se soma ao desenvolvimento de uma agricultura regenerativa, com um olhar mais completo para o solo, que deve ser visto como um ativo de investimentos de longo prazo”, enfatiza Bruno Fonseca, analista de mercado do Rabobank.
Há alguns anos, a instituição financeira acompanha o desenvolvimento desse mercado para indicar aos clientes a adoção de metodologias sustentáveis para o campo e para o bolso. Um dos focos principais é estimular os cultivos de baixo carbono ou carbono zero.
De acordo com um estudo recente da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aproximadamente 25% das emissões globais de gases de efeito estufa estão relacionadas à degradação do solo e a práticas pouco sustentáveis. Diante do cenário, a união entre cuidados com o solo e a aplicação de bioinsumos se torna crucial para combater esses riscos, fugir dos estresses climáticos e ainda garantir segurança alimentar.
